segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Chinelos de ouro

- Susi, Susi Quillll, cadê você??
Saí gritando pela produtora que trabalhava, em Belém.
- Lio, que gritaria é essa? Tô terminando de almoçar. Sossega menina!
Olhei rápido os chinelos nos pés de Susi. No momento era o único chinelo que podia me salvar.
- Susi, além desse chinelo velho no teu pé, tu tens outro ou algum sapato aqui?
- Que história estas inventando?
- Rápido Susi, é sério!
- Claro, não venho pra cá com isso, uso sapatos.
- Sem direito de dizer não, me dá teu chinelo pink e em troca te darei um novinho e mais bonito.
Susi, a camareira da produtora, não tendo tempo de questionar passou-me o pedido. Peguei os chinelos quentinhos e corri para a porta da rua.
Nunca acreditei em milagres, mas neste exato ano de 2005 passei a creditá-los. Um ancião vendia cafezinhos num carrinho de feira, e no horário de almoço tomou seu caminho pela rua do meu trabalho. Eu, já fastiada e um pouco entendiada, usava o resto de folga para olhar, da janela de vidro peliculado, a rua deserta assombrada pelo sol escaldante do ínicio da tarde. De longe avistei o velho no outro lado da rua, vagarosamente empurrando seu carrinho.
Uma figura pronta para minhas reflexões, se não fosse uma banda de seus chinelos escangalhar na frente do meu exato olhar. O momento parou ali mesmo, pra ele, pra mim. Sem sucesso ele tentava ajeitar sua carcomida ferramenta de trabalho, e eu imaginava como o senhor conseguiria voltar pra casa descalço de um pé, no asfalto quente de Belém.
Em menos de cinco minutos escancarei a porta da produtora com os chinelos nas mãos. O senhor concentrado na sua questão não notou minha presença.
- Senhor...aqui...pra você...
Entreguei a ele os chinelos e vi em seu olhar algo desconhecido. Um pequeno olhar descrente modificado pela aparição de um desejo impensado. Um inesperado presente, que apesar de necessário não foi pedido, surgiu do nada, do repente, de onde?
Seu espanto esquivou qualquer palavra e cometeu os melhores agradecimentos. Suas mãos carregadas com os chinelos púpuros, oscilaram reações precisas, demorou alguns minutos para se dar conta do fato. Voltei para a janela e consegui alcançá-lo, já calçado de rosa, e guardando seus velhos chinelos no carrinho.

Por milagre imagino:
O milagre é a precisão urgente onde o tempo pra pedir não dá tempo de pedir. Quando a escuridão não simula saída, o mesmo breu faísca uma possibilidade.

2 comentários:

  1. O milagre é a coisa certa, na hora certa, pelas mãos dos mais poderosos. Belo texto!

    ResponderExcluir
  2. Só que é bom age desta forma.
    ETM

    ResponderExcluir

Seguidores